Uma turbina eólica extrai energia do escoamento — e ao fazê-lo, cria atrás de si uma região de vento mais lento e mais turbulento: a esteira (wake). Se outra turbina estiver instalada nessa região, ela captará menos vento e gerará menos energia. Em parques com dezenas ou centenas de turbinas, o efeito cumulativo das esteiras pode reduzir a produção em 5 a 20% — a diferença entre AEP bruto e AEP líquido que aparece em todo laudo de avaliação de recurso.
Entender a mecânica da esteira é essencial para três decisões práticas: o layout do parque (posicionamento das turbinas para minimizar o impacto mútuo), a seleção de espaçamento (trade-off entre área de terreno e perda de wake), e a estimativa do componente de incerteza de wake no orçamento que alimenta o P90 exigido pelo financiador.
O que gera a esteira: o coeficiente de empuxo Ct
A intensidade da esteira depende de quanto a turbina desacelera o vento — quantificado pelo coeficiente de empuxo Ct (thrust coefficient). O Ct é a relação entre a força de arrasto exercida pelo rotor e a energia cinética disponível no escoamento livre:
Ct = T / (½ ρ A V₀²) T — força de empuxo sobre o rotor (N) ρ — densidade do ar (~1.225 kg/m³ ao nível do mar) A — área varrida pelo rotor = π D²/4 V₀ — velocidade do vento livre (m/s) # O Ct varia com a velocidade do vento: # V < 5 m/s (antes de rated): Ct alto → 0,75–0,90 # V ≈ rated (11–13 m/s): Ct começa a cair # V > 15 m/s (acima de rated): Ct baixo → 0,20–0,40 (pitch control) # Máximo teórico de Betz: Ct = 8/9 ≈ 0,889 no ponto de máxima extração # Turbinas reais: Ct_max ≈ 0,75–0,88 no range 6–10 m/s
O Ct máximo ocorre na faixa de velocidade que mais contribui para a AEP (6–10 m/s para a maioria dos sítios do Nordeste). Por isso, as perdas por esteira são mais severas justamente quando o recurso é melhor — o efeito de wake tem mais impacto na produção anual do que a curva de Ct instantânea isolada sugere.
O modelo de Jensen (Park): a geometria da esteira
O modelo de Jensen — publicado em 1983 e ainda amplamente usado em softwares como WAsP, FLORIS e OpenWind por sua simplicidade analítica — descreve a esteira como um cone de expansão linear, com velocidade uniforme dentro do cone (top-hat profile):
# Velocidade na esteira a distância x do rotor: V_w / V₀ = 1 − (1 − √(1−Ct)) × (D / (D + 2k×x))² D — diâmetro do rotor (m) k — constante de decaimento da esteira (adimensional) x — distância a sotavento (downwind) em metros V₀ — velocidade do vento livre (m/s) # Raio da esteira (crescimento linear): r_w(x) = D/2 + k×x # Déficit de velocidade (fração): ΔV/V₀ = 1 − V_w/V₀ = (1 − √(1−Ct)) × (D / (D + 2k×x))²
O parâmetro k controla a taxa de expansão da esteira e depende principalmente da rugosidade do terreno e da turbulência atmosférica local:
| Ambiente | k típico | Implicação |
|---|---|---|
| Offshore mar aberto | 0,03–0,05 | Esteira estreita, longa e intensa — recupera-se lentamente |
| Onshore terreno plano | 0,05–0,08 | Recuperação moderada — 5–7D de espaçamento é suficiente |
| Onshore rugoso / serras | 0,08–0,12 | Turbulência local acelera mistura — wake se dilui mais rápido |
O déficit de velocidade e a recuperação com a distância
A FIG. 2 mostra como o déficit de velocidade (ΔV/V₀) decai com a distância a sotavento, para três valores de k e com Ct=0,80 (valor típico na faixa de velocidade que mais contribui para AEP).
Sobreposição de esteiras: parques com múltiplas turbinas
Em parques reais, uma turbina pode receber a esteira combinada de duas ou mais turbinas upstream. O modelo de Jensen usa sobreposição linear: o déficit resultante é calculado como a soma ponderada pela área dos déficits individuais dentro do rotor de jusante:
# Sobreposição linear de déficits (método padrão Jensen):
ΔV_total / V₀ = Σᵢ (ΔVᵢ / V₀ × Aᵢ / A_rotor)
A_rotor — área total do rotor de jusante (m²)
Aᵢ — área de sobreposição entre wake i e o rotor de jusante (m²)
ΔVᵢ — déficit da esteira i no ponto de interseção
# Alternativa (RSS — raiz da soma dos quadrados):
ΔV_total / V₀ = √(Σᵢ (ΔVᵢ / V₀)²) — conservativa, menos usada
# AEP líquido do parque:
AEP_liq = Σⱼ [ P(V_j_eff) × Δt ] # soma hora-a-hora com V efetiva
≈ AEP_bruto × (1 − η_wake) # aproximação para planejamento
A perda total de wake em nível de parque (η_wake) depende de três fatores principais: o espaçamento entre turbinas (em múltiplos de D), a distribuição direcional do vento (rosa dos ventos), e a densidade do parque (número de turbinas por km²). A relação não é linear — a diferença entre 4D e 6D de espaçamento tem impacto muito maior sobre a perda de wake do que a diferença entre 8D e 10D.
Turbulência acrescida: o segundo efeito da esteira
Além do déficit de velocidade, a esteira acrescenta turbulência ao escoamento que chega às turbinas de jusante. A intensidade de turbulência acrescida (ΔTI) segue a formulação de Frandsen (2005), usada pela IEC 61400-1 Ed. 4:
TI_efetivo = √(TI_ambiental² + TI_wake²) TI_wake ≈ 0,9 / (1,5 + 0,3 × x/D × √Ct) (Frandsen, IEC 61400-1 Ed.4) # Exemplo: x=5D, Ct=0.80, TI_ambiental=7%: TI_wake = 0.9 / (1.5 + 0.3×5×√0.8) = 0.9 / (1.5 + 1.342) = 0.9/2.842 = 0.317 = 31.7%? # Na prática, TI_wake é adicionado como contribuição independente: TI_efetivo = √(0.07² + 0.08²) ≈ 10.6% # aumento de 7→10.6% a 5D
O aumento de TI na esteira impacta as cargas de fadiga nas pás e na torre das turbinas de jusante — é o que determina a classe de turbulência efetiva do sítio. Em parques densos, as turbinas centrais (internas ao parque) podem receber TI efetiva 50–100% maior que a TI ambiente, o que afeta diretamente a seleção de classe IEC (ver NT.04). Laudos de classificação de sítio para parques devem declarar a TI representativa por posição de turbina, não apenas a TI ambiente medida na estação meteorológica.
A incerteza de modelagem de esteira como componente de AEP
O modelo de Jensen superestima o déficit perto do rotor e subestima a recuperação na zona intermediária (3–6D) em comparação com medições LiDAR e resultados de CFD. Modelos mais modernos — Gaussian wake (Bastankhah & Porté-Agel, 2014), FLORIS, PyWake — reproduzem melhor a distribuição lateral de velocidade na esteira, mas requerem mais parâmetros de calibração e maior custo computacional.
Para o orçamento de incerteza de AEP (discutido em NT.06 para o lado eólico), a incerteza de modelagem de wake é tipicamente um dos maiores componentes:
σ_wake ≈ 10–30% da perda de wake estimada # Exemplo: parque onshore com η_wake estimado = 8% (AEP_bruto = 200 GWh): AEP_líquido estimado = 200 × (1 − 0.08) = 184 GWh σ_wake = 20% × 8% = 1,6% de AEP → 3.2 GWh de incerteza (1σ) # Impacto no P90: # σ_wake contribui como qualquer outro componente no RSS total # Fator: depende da homologação do modelo e qualidade dos dados de entrada
A calibração do modelo de wake com dados medidos — campanhas de medição simultânea em duas ou mais turbinas, ou dados operacionais de SCADA cruzados com rosa dos ventos — pode reduzir σ_wake substancialmente. Isso é especialmente relevante em ampliações de parques existentes (repotenciação ou adição de turbinas) onde dados históricos de produção já permitem calibrar o modelo antes da decisão de investimento.
AEP bruto e AEP líquido no laudo de recurso
O laudo de avaliação de recurso para bankability precisa reportar explicitamente o AEP bruto (sem wake) e o AEP líquido (com wake aplicado), com a seguinte estrutura mínima:
AEP_bruto = Σⱼ P(V_j) × h_j # curva de potência × horas por bin de V AEP_wake = AEP_bruto × η_wake # perda de esteira (%) AEP_líquido = AEP_bruto − AEP_wake # Demais perdas (calculadas separadamente): AEP_elétrico = AEP_líquido × (1 − η_elétrica) # perdas coletor, trafo, linha AEP_disp = AEP_elétrico × disponibilidade # downtime, manutenção # P50 final entregue à rede: AEP_P50 = AEP_disp
Laudos que apresentam apenas "AEP_líquido" sem desagregar wake, perdas elétricas e disponibilidade não permitem ao IE ou ao banco verificar se cada componente é razoável. A decomposição clara é um requisito de due diligence — e a perda de wake é frequentemente o maior componente de perda do AEP bruto ao AEP entregue à rede, maior que as perdas elétricas e de disponibilidade combinadas.
Referências normativas e bibliográficas
- Jensen N.O. — A note on wind generator interaction, Risø National Laboratory Report Risø-M-2411 (1983)
- IEC 61400-1 Ed. 4 — Wind energy generation systems — Part 1: Design requirements (2019) — Frandsen wake-added turbulence model (Anexo D)
- Bastankhah M., Porté-Agel F. — A new analytical model for wind-turbine wakes, Renewable Energy 70:116–123 (2014)
- Frandsen S. et al. — Analytical modelling of wind speed deficit in large offshore wind farms, Wind Energy 9:39–53 (2006)
- Barthelmie R.J. et al. — Modelling and measuring flow and wind turbine wakes in large wind farms offshore, Wind Energy 12:431–444 (2009)
- EWEA — Wind Energy — The Facts, Part II: Grid Integration, Chapter 2.4 (2009)
